Existe uma coisa que me intriga nas pessoas que parecem incapazes de fazer algo pela metade. Em Whiplash, em Cisne Negro, em I, Tonya e, de uma maneira mais recente, em Marty Supreme, existe sempre essa fome, essa necessidade de chegar alguns centímetros depois do limite.
E o fascinante, acho, não é a destruição que vem depois, mas o que existe antes. Porque não é tão simples olhar para essas histórias e dizer que essas pessoas passaram do ponto. É mais difícil admitir que existe algo de admirável em quem deseja tão intensamente.

A maioria de nós negocia com a própria ambição. Temos outros interesses, outros afetos, outros planos. Essas pessoas parecem fazer o contrário. Elas escolhem uma coisa e vão tirando todo o resto do caminho.
Em Whiplash, Andrew sangra, é humilhado e continua. O mais perturbador é que Fletcher não cria exatamente aquela obsessão. Ele encontra algo que já estava lá e empurra até o extremo.
Em Cisne Negro, a perfeição deixa de ser uma meta e passa a ser uma espécie de identidade.
Em I, Tonya, existe a disposição de suportar quase qualquer coisa para permanecer de pé.
E em Marty Supreme, a ambição também aparece como uma força que não aceita ficar confinada ao lugar que lhe foi destinado.
Talvez seja por isso que esses filmes sejam tão fascinantes. Eles não falam apenas sobre talento. Falam sobre identidade.
O que acontece quando aquilo que você faz deixa de ser uma parte de você e passa a ser você por completo?
A obsessão é sedutora porque oferece uma resposta para uma pergunta que assusta: quem eu sou?

É muito mais simples dizer “sou o melhor”, “sou a bailarina principal”, “sou o campeão”, do que encarar todas as regiões de nós mesmos que aparecem quando ninguém está olhando.
E existe ainda uma fantasia mais poderosa: a de que, se eu for extraordinário em alguma coisa, consigo escapar de tudo aquilo de que não gosto na minha vida.
Não preciso mudar o mundo inteiro. Basta vencer em alguma coisa. Talvez essa seja a promessa secreta da obsessão. Ela oferece uma saída. E é aí que esses personagens deixam de ser tão distantes assim. Não acho que a pergunta interessante seja se vale a pena ser obcecado. Talvez seja mais difícil do que isso.
Quanto de nós estamos dispostos a perder para descobrir até onde podemos ir?
E, pior, como saber se o preço ficou alto demais quando, pela primeira vez, você finalmente se sente exatamente onde sempre quis estar?


