Yayoi Kusama morreu em 14 de agosto de 2026, num hospital de Tóquio, aos 97 anos. A notícia só chegou ao mundo treze dias depois, quando seu estúdio finalmente anunciou. Há algo de simbólico nesse atraso: mesmo na morte, Kusama controlou o próprio tempo de aparecer.
É preciso separar duas coisas. Uma é a mulher, o corpo, os 97 anos vividos entre alucinações que ela dizia ter desde os dez anos de idade, quando flores começaram a falar com ela e pontos passaram a se multiplicar sobre tudo o que via. Essa mulher morreu.
A outra é a ideia de Kusama: a bolinha infinita, a peruca vermelha, os espelhos que multiplicam quem olha até o ponto em que o próprio olhar deixa de importar. Essa não morre com ninguém, porque já não pertence só a ela.

Nascida em 1929 em Matsumoto, numa família conservadora ligada ao comércio de sementes, Kusama cresceu sendo desencorajada pela própria família a seguir a arte. A mãe, segundo relatos da própria artista, chegava a destruir seus desenhos e, décadas depois, Kusama reconheceria que foi justamente o ato de desenhar, apesar disso, o que a salvou do suicídio.
Aos treze anos, durante a Segunda Guerra, foi enviada para costurar paraquedas numa fábrica militar, numa adolescência que ela descreveria como vivida “na escuridão fechada”, entre alarmes de ataque aéreo e bombardeiros sobrevoando a cidade.
Anos depois, formada na Escola de Artes e Ofícios de Kyoto, insatisfeita com o conservadorismo do ensino tradicional japonês, escreveu para a pintora americana Georgia O’Keeffe pedindo conselhos. Foi esse contato que a levou a se mudar para Nova York, em 1958, com pouco mais do que a própria obsessão.

Na cidade, tornou-se figura da vanguarda ao lado de nomes como Andy Warhol, Donald Judd e Joseph Cornell, e passou a expor pinturas monocromáticas de grande escala, esculturas e instalações, além de performances provocativas, muitas com nudez, que a transformaram numa referência da contracultura dos anos 1960.
Kusama chegou a se definir, mais tarde, como “uma artista obsessiva” e “uma herege do mundo da arte”, alguém que pensava apenas em si mesma ao trabalhar. Desde 1977, morava por vontade própria numa instituição psiquiátrica em Tóquio, de onde caminhava todos os dias até o estúdio ao lado para pintar.
Ela mesma chamava esse processo de “medicina artística”: a arte como a única forma encontrada de conviver com a própria mente.
O reconhecimento internacional que viria depois é, também, uma ironia proposital. Kusama tornou-se uma das artistas mais fotografadas do planeta, o que contrasta com uma obra inteira dedicada a dissolver o indivíduo numa repetição sem fim, o que ela chamava de “autoaniquilação”.

Colaborou com a Louis Vuitton desde 2011, a convite do então diretor criativo Marc Jacobs, desenhou um balão de mais de dez metros para o desfile de Ação de Graças da Macy’s em Nova York e transformou suas salas de espelhos infinitos, as “Infinity Mirror Rooms”, talvez na experiência de arte mais compartilhada em redes sociais da história recente: o tipo de obra que existe tanto no museu quanto no feed.
Em 2006, tornou-se a primeira mulher a receber o Praemium Imperiale, um dos prêmios mais importantes do mundo da arte.
E é isso que sua morte carnal expõe: o quanto o imaginário coletivo sobre o artista, excêntrico, obsessivo, um pouco fora do mundo, encontrou nela sua forma mais completa e, ao mesmo tempo, mais genuína.
Kusama não performava excentricidade para vender. A excentricidade era, literalmente, a maneira como ela via a realidade, coberta de manchas, e a arte foi sempre a tentativa de sobreviver a essa visão sem ser engolida por ela.

Ela dizia que continuaria pintando até o último dia, e continuou.
A pergunta que sua morte deixa não é sobre o que ela fez, mas sobre o que resta quando um ídolo desses se vai: as bolinhas continuam, os espelhos continuam, o infinito que ela passou a vida tentando pintar continua. Só a mão que segurava o pincel é que parou.


