Jane, além da Birkin

Jane Birkin atravessou cinema, música e moda sem se deixar reduzir a um único papel. Entre escolhas intuitivas, recomeços e uma relação muito própria com o vestir, construiu um legado que vai muito além da bolsa que leva seu nome.

Todo ícone nasce quando a imagem de uma pessoa sobrevive à própria pessoa; Jane, porém, deixou algo mais difícil de preservar: a maneira como passou por esse mundo. Jane Birkin, uma inglesa que chegou à França ainda jovem, transitou por diversas áreas artísticas, como o cinema e a música, atuando em cerca de 65 longas-metragens.

Ao longo de quase seis décadas de carreira, trabalhou com grandes nomes do cinema mundial, como Michelangelo Antonioni, no premiado filme “Blow-Up”, e Agnès Varda, no filme-retrato experimental “Jane B. par Agnès V.”

Na França, Jane também se tornou inseparável de Serge Gainsbourg, com quem viveu um dos romances mais emblemáticos da cena parisiense, tornando-se ícone da boemia dos anos 1960 e 70. Juntos, formaram um casal que atravessou música, cinema e cultura popular, e tiveram uma filha, Charlotte Gainsbourg, enquanto Jane já era mãe de Kate, de seu relacionamento anterior com John Barry.

Suas filha Kate e Charlotte e seu marido Serge Gainsbourg.

Mas, embora aquela relação tenha contribuído para a construção do mito, a trajetória de Jane não terminaria ali. Em certo momento, o mito de Gainsbourg e Birkin acabou, mas Jane continuou. No estilo, Jane Birkin também parecia não reconhecer fronteiras. Podia surgir em um vestido de tafetá, com toda a sofisticação que se esperava de uma estrela, e, no dia seguinte, aparecer de camiseta branca, calça jeans e uma cesta de palha pendurada no braço.

Essa cesta, aliás, dizia muito sobre sua maneira de vestir: ela não precisava que cada elemento conversasse perfeitamente com o outro. Havia espaço para o elaborado e para o despretensioso. Birkin transitava entre vestidos de grife, minissaias, peças masculinas, jeans e tricôs com a mesma naturalidade, como se estilo não fosse uma questão de seguir códigos, mas de não se deixar aprisionar por eles.

Emblemática cesta de palha.

Talvez seja justamente aí que esteja sua permanência: ela não criou uma fórmula de se vestir, apenas se sentia absolutamente à vontade dentro de qualquer roupa. Depois de Gainsbourg, Jane viveu uma nova fase ao lado do cineasta Jacques Doillon, com quem teve sua terceira filha, Lou. Foi nesse período que sua inseparável cesta de palha acabou destruída — Doillon passou com o carro sobre ela. Dois dias depois, em um voo para Londres, seus pertences se espalharam pelo chão da primeira classe da Air France. Ao lado dela estava Jean-Louis Dumas, então presidente da Hermès.

Jean Louis Dumas (1938-2010), empresário francês, presidente do grupo Hermès de 1978 a 2006.

Da conversa entre os dois nasceu a ideia de uma bolsa feita para acompanhar sua vida: prática, espaçosa e elegante. É uma história curiosamente simbólica. A cesta que fazia parte de sua identidade precisou ser destruída para que outra coisa pudesse nascer em seu lugar, como se, na trajetória de Jane, o fim nunca fosse exatamente um fim, mas apenas a forma que o recomeço encontrava para aparecer.

Talvez seja por isso que Jane Birkin permaneça tão fascinante: porque sua história nunca foi realmente sobre permanecer a mesma. Foi sobre continuar em movimento. Ela atravessou amores, perdas, maternidade, cinema, música, moda, envelhecimento e a própria transformação em ícone sem permitir que nenhuma dessas coisas fosse sua definição final.

Bolsa icônica de Jane Birkin.

O mundo transformou seu nome em objeto, seu rosto em referência e seu estilo em código; Jane, porém, continuou sendo uma mulher em processo. E talvez exista aí uma ideia de liberdade muito mais profunda do que aquela que sua imagem boêmia sugeria: a liberdade de não precisar ser fiel à versão de si mesma que o mundo decidiu amar.

No fim, talvez o legado de Jane Birkin não esteja em uma bolsa, em uma roupa ou sequer em uma fotografia, mas naquilo que sua vida parece lembrar — que existir é também saber deixar algumas versões de nós para trás, recolher o que restou e continuar andando.

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